Como é que os heróis homéricos sabiam as ascendências uns dos outros?

Há vários anos atrás foi-nos posta uma pergunta que poderá fazer sorrir – como é que os heróis homéricos sabiam as ascendências uns dos outros? Claro que na Ilíada existem os mais diversos momentos em que as paternidades e eventos de um e outro herói são mencionadas, mas como podiam eles saber isso uns dos outros? Será que, como uma amiga costumava dizer, “paravam para conversar”?

Não temos, naturalmente, uma resposta totalmente fidedigna para dar, até por ser uma questão derivada de uma obra de ficção e uma convenção de poemas épicos, mas numa obra chinesa, 西遊補 (o Suplemento da Viagem ao Oeste, também conhecido por outros nomes), aparece uma sequência que neste contexto merece ser trazida à luz. Dois combatentes estão em pleno combate, a trocar os mais diversos golpes, quando um deles diz ao outro:

Espera! Se eu não te falar sobre a minha família, quando eu te matar e te tornares um fantasma irás continuar a pensar que eu sou apenas um pequeno general sem nome. Mas permite-me contar-te: eu, o Rei Pramit, sou nem mais nem menos que um descendente directo do Macaco Sun, o Grande Sábio Igual ao Céu, que causou grande confusão no Céu.

Será que monólogos como estes, de pura vangloriação, também tinham lugar, muitas vezes de forma implícita, no imaginário do poeta da Ilíada? É bastante possível que sim, mesmo que se pense que nunca tenham acontecido em confrontos bélicos mais reais.

A estranha morte de Hans Staininger

A história de Hans Staininger

Hans Staininger é daquelas figuras que provavelmente ninguém conhece em terras de Portugal ou do Brasil, mas ele continua ainda hoje a ser famoso na Áustria, terra em que em meados do século XVI foi presidente da câmara de Braunau am Inn. No entanto, esta história não é sobre os seus feitos legislativos – que, confesse-se, foi um ponto que não fomos, de todo, averiguar – mas sobre a forma como este homem depois veio a falecer, a 28 de Setembro de 1567.

A história de Hans Staininger

Como pode ser visto na imagem acima, este senhor tinha uma barba bastante longa, dizendo-se hoje que era a mais longa que fora atestada no seu tempo, chegando a cerca de 140cm – quase metro e meio! Agora, avançando-se para o tema da sua incomum morte, diz-se então que em dada altura a cidade de Braunau am Inn sofreu um incêndio, e quando este Hans Staininger ia a descer uma escada tropeçou na sua própria barba, caiu, e parece ter partido o seu pescoço, morrendo instantaneamente…

Toda esta história talvez ficasse por aí, como tantas outras que a Europa viu esquecer ao longo dos séculos, não fosse o que tomou lugar pouco depois – diz-se que a barba deste senhor foi então cortada e passada de mão em mão ao longo dos séculos, até que a respectiva família a doou ao museu local, onde ainda pode ser vista hoje, num misto de uma cor castanha clara e branca.

 

Terá sido verdade? Ou será pura lenda, esta última parte de toda a história, referente à preservação, quase miraculosa, da barba de Hans Staininger? Não é fácil sabê-lo, mas se tivermos em conta a nossa história nacional da barba de Dom João de Castro, é de facto possível acreditar que tudo isto teve lugar como o diz esta espécie de lenda, pelo menos se o corpo do senhor sobreviveu ao incêndio… mas certezas, essas, só os deuses as têm…

A lenda de Richmodis von Aducht (e outras…)

Lenda de Richmodis von Aducht

Existem mitos e lendas que dão o proverbial pano para mangas, e a de hoje, esta história de Richmodis von Aducht, poderá até ser uma delas, por razões que já serão explicadas. Antes disso, uma curiosidade – em busca de uma imagem para esta história, encontrámos a seguinte, que certamente fará rir até aqueles que ainda não conheçam a trama:

Lenda de Richmodis von Aducht

Agora, feita essa breve introdução, conte-se a própria história de hoje. Conta-se então que Richmodis von Aducht viveu na cidade alemã de Colónia em meados do século XIV, quando sofreu uma doença grave que a colocou numa espécie de coma. Talvez não tenha dormido tanto como uma dada menina de Turville, mas a verdade é que o esposo pensou que ela estava falecida, e mesmo não conseguindo tirar a preciosa aliança de casamento que esta senhora tinha num dos dedos, decidiu enterrá-la. Agora, como é claro, se toda esta história ficasse por aqui, não teria muito interesse…

Na noite seguinte à desse enterro, alguém tentou invadir a campa desta senhora e roubar-lhe a aliança. Também incapaz de a remover tão facilmente como esperaria, tentou então cortar-lhe o dedo, e… com a dor que sentiu, Richmodis von Aducht acordou do seu coma, assustando quase de morte quem a tinha tentado roubar! Mas, pela segunda vez, a história ainda não fica por aqui!

Certamente já muito descontente com a ocorrência, esta senhora regressou então a casa, encontrando a porta encerrada. Quando nela bateu, esperando pedir ao marido que a abrisse, este teve um medo imenso de o fazer. Ele pensava, e juraria, que a esposa estava falecida… e portanto, fosse quem fosse – ou o que fosse – que lhe batia à porta, jamais podia ser ela. Este impasse prolongou-se por algum tempo, até que ele disse algumas palavras como “Se é a minha mulher está a bater à porta, que os meus cavalos subam ao sótão”… e pouco depois, começou, na verdade, a ouvir o barulho de cascos nesse piso acima! Lá abriu a porta, reuniu-se com a esposa, e… não se sabe muito bem o que aconteceu a seguir, mas talvez tenham vivido felizes para sempre… ou talvez não!

 

A história de Richmodis von Aducht acaba assim, mas as linhas que aqui deixamos hoje ainda não terminaram. Quem for à cidade de Colónia pode encontrar um local chamado “Richmodis-Haus”, que contém uma torre onde estão representados dois cavalos, em alusão à lenda. No entanto, existem outras cidades na Alemanha que parecem ter monumentos semelhantes, e uma história com contornos bastante similares também existe em vários outros países europeus (ainda não encontrámos nenhuma em Portugal) E, na verdade, até tomámos contacto desta história pela versão de uma Margorie McCall, que viveu na Irlanda e cujo túmulo ainda apregoa “Lived once, buried twice” – mas na qual não aparecem os cavalos, tendo o marido morrido de medo quando ela voltou a casa. Verdade ou não, estas várias versões podem levantar uma grande questão – qual é a versão original, a mais antiga, de toda a história?

Ainda não o conseguimos descobrir. A versão contada acima, a desta senhora alemã, parece ser uma das mais famosas, mas não necessariamente a mais antiga. Elas parecem ter-se popularizado no século XIV em virtude da Peste Negra, não por esse ser um dos sintomas da doença em questão, mas por um conjunto de medos populares que foram agudizados nessa altura. Ainda não se sabia muito bem como verificar se uma pessoa estava mesmo morta, e então… começou-se a temer que as circunstâncias preservadas nesta história pudessem acontecer!

 

Será que isto aconteceu mesmo a Richmodis von Aducht, ou a qualquer outra mulher – ou homem – pela nossa Europa fora? Não sabemos. Não encontrámos qualquer informação que permita concluir que sim, ou que torne possível afirmar o seu contrário. Portanto, este tema é fértil para a criação de lendas, como nos foi possível ver em diversos países europeus. E, se alguém conhecer uma história semelhante a esta e famosa em Portugal, por favor deixe-a nos comentários!

Quem foi Maria Padilha?

A lenda ou mito de Maria Padilha

Maria Padilha não é uma figura muito conhecida da história portuguesa ou espanhola, mas quem tiver interesse em artes mágicas, ou em Umbanda, Quimbanda e religiões afro-brasileiras semelhantes certamente que já ouviu esse nome. Agora, a escrita destas linhas não se deve a essas crenças, mas a uma que ainda as precede em alguns séculos – o facto de, recentemente, termos encontrado o nome desta figura – ou, mais precisamente, de Maria de Padilla – num documento de carácter mágico nacional. Esta lá, juntamente com Urganda a Desconhecida e Medeia, entre outras figuras de outros tempos. A ideia, esse sincretismo, é bem captada nesta imagem:

A lenda ou mito de Maria Padilha

Portanto, quem foi Maria Padilha, na realidade? O documento que lemos sugere uma identificação evidente com “María de Padilla”, uma figura histórica histórica da Espanha do século XIV que foi amante do rei Pedro de Castela. A sua história real não tem muito interesse para estas linhas, não fosse pelo seguinte – dada algumas decisões menos bem pensadas que o monarca fez por amor a esta mulher, gerou-se entre o povo a ideia de que ela era uma feiticeira, talvez com o poder de uma Moura de outros tempos, cantando-se então versos como estes, originalmente em Castelhano:

Dona Maria de Padilla
Teve o cinto em sua mão;
Entregou-o a um judeu
Que era mágico e sábio.
Pôs ele nele tais coisas
Que ao Rei muito assustaram:
Uma cobra lhe pareceu.

No geral, estas histórias falam de uma ou várias acções que esta mulher só conseguiu do monarca por via da sua magia, muitas vezes com um cinto mágico que lhe ofereceu, e parecem ter-se inspirado na ideia geral reproduzida acima. Merece aqui ser visto um outro exemplo de uma história que menciona esta figura, também traduzido do original castelhano:

Manhãzinha [do Dia] de Reis – a primeira festa do ano,
Quando damas e donzelas – ao Rei pedem presente de Reis;
Umas pediam-lhe seda – outras o fino brocado;
Outras pedem-lhe mercês – para os seus enamorados.
Dona Maria [de Padilla], entre todas – vem pedir-lhe a chorar
A cabeça do Mestre – do Mestre de Santiago.
O Rei concedera-lha – e ao bom Mestre chamou.
Saem criados e pajens – quando o Mestre entra:
– Bem-vindo seja, cavaleiro – Mestre, em má hora chegou,
Pois em tal dia a sua cabeça – foi prometida como presente.
– Quem a minha cabeça prometeu – ponha a sua a bom recado;
Que cabeças de mestres – não se dão como presente.
Vilas e cidades tenho – e freires sob o meu mando:
Não mo-las deu Rei nem Rainha – ganhei-as eu por minha mão. –
Estas razões dissera – o Mestre de Santiago,
Quando entre pajens do Rei – entrara no seu palácio.
E mais sem hesitar falara – como homem bem sensato;
Mas ao subir a escada – a cabeça lhe cortaram.
Ali a entregam ao Rei: – ele, embora fosse seu irmão,
Mandou atirá-la a uma fonte – para fazer o presente de Reis.
“Levai-a a Dona Maria” – dissera aos seus criados.
Dona Maria que a viu – muito se maravilhou;
Pois o Rei amava o Mestre – e era muito grande o presente.
Agarrou-a pelos cabelos – e deu-lhe bofetadas:
– Agora pagas-me, cão – o deste ano e o do ano passado,
Quando me chamaste puta – do Rei Dom Pedro, teu irmão. –
Agarrou-a pelos cabelos – e atirou-a ali ao alão;
O alão é do Mestre – e bem conhece o seu dono.
Apanhou-a com os seus dentes – e levou-a para sagrado:
Faz com as patas a cova – onde a cabeça enterrou.
Bem o vira o Rei Dom Pedro – de onde está a passear:
Bem o vira esse bom Rei – que fez tal presente de Reis.
Chega à varanda e pergunta: – De quem era aquele alão?
– Esse alão é do Mestre – do Mestre de Santiago;
Que para lhe fazer as exéquias – está, como vedes, a chorar.
– Ai, triste de mim e mesquinho – ai triste de mim e coitado:
Se o alão faz aquilo – o que há-de fazer um irmão! –
Dormir não pode o bom Rei, – dormir não pode o coitado:
Porque a meio da noite – o Mestre o chamou,
Vira-o todo ensanguentado – sem cabeça, no seu cavalo;
Vira-o todo ensanguentado – o seu peito ameaçado.
Dormir não pôde o bom Rei, – que jaz todo desvelado,
Porque a meio da noite – Dona Maria o chamou.
Vira-a com a cabeça – que fora atirar ao alão.
Dona Maria de Padilla – pelos ares vai voando;
Pelas suas boas feitorias – não a quer Deus nem o Diabo.

“Maria de Padilla (…) não a quer Deus nem o Diabo”, terá sido esta a ideia que inspirou a figura tal como ela é pensada hoje, mas na qual a figura original já está quase esquecida, tornando-se naquela figura que ainda hoje tem alguma fama em territórios como o Brasil e em religiões como as nomeadas acima. Talvez assim se compreenda a origem da Bruxa Évora, e outras tantas figuras desses tempos que passaram por processos semelhantes ao longo do tempo…

“Como eu atravessei a África”, de Serpa Pinto

Como eu atravessei a África, de Serpa Pinto

Se a história de Portugal é feita dos actos de heróis, uns são certamente mais famosos do que outros. Por cada Dom João de Castro, Luís de Camões ou Dom Sebastião, temos incontáveis Bandarras e figuras como Simão Gomes, e é nesse segundo grupo que podemos inserir a figura de Serpa Pinto. Aqui e ali ainda se encontram escolas, ruas e diversos outros locais com o seu nome, mas parece que já quase ninguém se recorda da outrora-importante aventura que lhe trouxe fama. E, portanto, decidimos dedicar-lhe algumas linhas hoje, como vamos fazemos com tantas outras figuras do passado nacional e mundial.

Como eu atravessei a África, de Serpa Pinto

Serpa Pinto viveu na segunda metade do século XIX, e se muito aqui poderia ser dito sobre ele, há como recordar, como sempre, que o nosso objectivo não é tratar dessas biografias, mas sim das histórias, mais ou menos lendárias, que envolvem figuras como esta. E, portanto, em dada altura da sua vida ele foi como que sugerido pelo governo nacional a explorar os caminhos e o rios que existiam entre Angola e Moçambique. A intenção final seria, parece, a de se conhecer melhor as ligações entre esses dois países, e este autor não só o fez, como decidiu escrever um livro sobre toda essa sua aventura, que antes da sua publicação recebeu o nome de Como eu atravessei a África.

Até aqui tudo bem, seria um livro como tantos outros que foram sendo escritos por autores nacionais ao longo dos séculos, mas o de Serpa Pinto merece ser recordado pelo facto deste viajante falhar o seu derradeiro objectivo. Sim, leram isso bem – ele propôs-se a um desafio que, à época, seria de enorme interesse para o país, mas depois acabou por não o conseguir levar a bom porto. Deixe-se claro que a culpa não foi dele, o próprio livro detalha as dificuldades contínuas com que se foi deparando ao longo da aventura, mas ele acaba por falhá-la e ter de adoptar um caminho muito diferente daquele a que se tinha proposto.

Nesse seguimento, o próprio livro Como eu atravessei a África pode ser dividido em duas partes, que infelizmente não correspondem aos dois volumes da sua publicação original – uma primeira, em que Serpa Pinto tenta atingir o seu objectivo, e uma segunda, em que prossegue o seu caminho de outra forma, eventualmente voltando a Portugal. A primeira parte é bem mais interessante que a segunda, até por relatar alguns costumes dos povos locais por onde foi passando. A segunda, essa, talvez valha a pena somente por relatar como é que ele conseguiu voltar ao país de onde tinha saído… o que, a não ser para quem estude a sua época, já não é tão interessante.

 

Como tal, vale a pena, hoje em dia, ler a obra Como eu atravessei a África? Não é um relato lá muito interessante para o leitor comum, mas talvez tenha o seu interesse para quem quiser estudar as relações entre Portugal e Angola em meados do século XIX. Fora esse público, a aventura de Serpa Pinto talvez já não seja de grande curiosidade, até por depois ter sido completada por outras figuras, o que poderá explicar a forma como ele foi sendo esquecido ao longo das décadas…