Existem mitos e lendas que dão o proverbial pano para mangas, e a de hoje, esta história de Richmodis von Aducht, poderá até ser uma delas, por razões que já serão explicadas. Antes disso, uma curiosidade – em busca de uma imagem para esta história, encontrámos a seguinte, que certamente fará rir até aqueles que ainda não conheçam a trama:

Agora, feita essa breve introdução, conte-se a própria história de hoje. Conta-se então que Richmodis von Aducht viveu na cidade alemã de Colónia em meados do século XIV, quando sofreu uma doença grave que a colocou numa espécie de coma. Talvez não tenha dormido tanto como uma dada menina de Turville, mas a verdade é que o esposo pensou que ela estava falecida, e mesmo não conseguindo tirar a preciosa aliança de casamento que esta senhora tinha num dos dedos, decidiu enterrá-la. Agora, como é claro, se toda esta história ficasse por aqui, não teria muito interesse…
Na noite seguinte à desse enterro, alguém tentou invadir a campa desta senhora e roubar-lhe a aliança. Também incapaz de a remover tão facilmente como esperaria, tentou então cortar-lhe o dedo, e… com a dor que sentiu, Richmodis von Aducht acordou do seu coma, assustando quase de morte quem a tinha tentado roubar! Mas, pela segunda vez, a história ainda não fica por aqui!
Certamente já muito descontente com a ocorrência, esta senhora regressou então a casa, encontrando a porta encerrada. Quando nela bateu, esperando pedir ao marido que a abrisse, este teve um medo imenso de o fazer. Ele pensava, e juraria, que a esposa estava falecida… e portanto, fosse quem fosse – ou o que fosse – que lhe batia à porta, jamais podia ser ela. Este impasse prolongou-se por algum tempo, até que ele disse algumas palavras como “Se é a minha mulher está a bater à porta, que os meus cavalos subam ao sótão”… e pouco depois, começou, na verdade, a ouvir o barulho de cascos nesse piso acima! Lá abriu a porta, reuniu-se com a esposa, e… não se sabe muito bem o que aconteceu a seguir, mas talvez tenham vivido felizes para sempre… ou talvez não!
A história de Richmodis von Aducht acaba assim, mas as linhas que aqui deixamos hoje ainda não terminaram. Quem for à cidade de Colónia pode encontrar um local chamado “Richmodis-Haus”, que contém uma torre onde estão representados dois cavalos, em alusão à lenda. No entanto, existem outras cidades na Alemanha que parecem ter monumentos semelhantes, e uma história com contornos bastante similares também existe em vários outros países europeus (ainda não encontrámos nenhuma em Portugal) E, na verdade, até tomámos contacto desta história pela versão de uma Margorie McCall, que viveu na Irlanda e cujo túmulo ainda apregoa “Lived once, buried twice” – mas na qual não aparecem os cavalos, tendo o marido morrido de medo quando ela voltou a casa. Verdade ou não, estas várias versões podem levantar uma grande questão – qual é a versão original, a mais antiga, de toda a história?
Ainda não o conseguimos descobrir. A versão contada acima, a desta senhora alemã, parece ser uma das mais famosas, mas não necessariamente a mais antiga. Elas parecem ter-se popularizado no século XIV em virtude da Peste Negra, não por esse ser um dos sintomas da doença em questão, mas por um conjunto de medos populares que foram agudizados nessa altura. Ainda não se sabia muito bem como verificar se uma pessoa estava mesmo morta, e então… começou-se a temer que as circunstâncias preservadas nesta história pudessem acontecer!
Será que isto aconteceu mesmo a Richmodis von Aducht, ou a qualquer outra mulher – ou homem – pela nossa Europa fora? Não sabemos. Não encontrámos qualquer informação que permita concluir que sim, ou que torne possível afirmar o seu contrário. Portanto, este tema é fértil para a criação de lendas, como nos foi possível ver em diversos países europeus. E, se alguém conhecer uma história semelhante a esta e famosa em Portugal, por favor deixe-a nos comentários!